20 deputados mudariam de cor se o hemiciclo fosse o espelho das urnas

Um leitor do Parla! perguntou-nos o que mudaria se cada partido pesasse a sua percentagem de votos de 2025 em vez dos seus deputados.

A sugestão que nos chegou pelo r/portugal, em setembro de 2026. Ocultámos o nome do utilizador.

À esquerda, os deputados eleitos pelos 22 círculos. À direita, os mesmos 230 lugares se cada voto de 2025 pesasse o mesmo; os lugares contornados mudam de partido.

O exemplo do leitor, PS e Chega, não muda nenhum resultado: juntos têm 118 dos 230 deputados com 47,5 % dos votos, e quando votam juntos contra a AD ganham nas duas contas (118 contra 91; 47,5 % contra 33,1 %). As votações que mudam são as em que um dos dois se abstém.

105 das 1 316 votações mudariam de resultado; 49 são leis

Projetos e propostas de lei votados na generalidade e em votação final global. A cor marca as que mudariam de resultado.

Nas 1 316 votações na generalidade e finais globais da XVII Legislatura com voto por partido, somámos os deputados a favor e contra, e depois as percentagens de votos de 2025 dos mesmos partidos. 105 mudariam de resultado (8 %): 98 rejeitadas passariam, 7 aprovadas cairiam. 56 são recomendações ao Governo (55 rejeitadas, 1 aprovada), que não são leis e ficam para outra análise. 49 são leis:

Das 353 rejeitadas na generalidade, 43 passariam.

Das 157 aprovadas na generalidade, 2 cairiam; das 107 aprovadas em votação final, 4. São 6 votações e 5 aprovações: o Orçamento do Estado conta nas duas.

Nas 43 leis rejeitadas que passariam, só o PSD e o CDS-PP votam contra: 91 deputados, 33,1 % dos votos. Do outro lado, um dos blocos grandes abstém-se, o Chega ou o PS, muitas vezes com a Iniciativa Liberal, e os restantes votam a favor. Esses somam menos deputados do que a AD, mas mais votos: entre 33,2 % e 40,5 %.

Cinco leis cairiam, a começar pelo Orçamento do Estado

As cinco leis aprovadas que cairiam. Cada votação lida com os deputados de hoje e com os do hemiciclo proporcional.

Quatro leis do Governo passaram da mesma maneira: a AD a favor, o PS a abster-se, o Chega, o PCP e o BE contra. Com 78 deputados em vez de 91, caem todas.

O Orçamento do Estado para 2026 passou com 91 a favor e 79 contra na generalidade e 91 contra 81 na votação final; o PS absteve-se nas duas. Por votos: 78 contra 90 e 78 contra 93. Cairia nas duas. As Grandes Opções 2025-2029 (91 contra 71), a prestação social única, que funde oito apoios sociais num só (91 contra 72), e a fiscalização das plataformas digitais pela ANACOM (91 contra 73) dão todas 78 contra 80 por votos.

A quinta é um projeto da Iniciativa Liberal sobre o regime fiscal do mecenato, aprovado na generalidade por 11 contra 10: a favor a Iniciativa Liberal e o CDS-PP; contra o Livre, o PCP e o BE; PSD, Chega, PS e PAN abstidos. Em deputados proporcionais, 13 contra 21 (a Iniciativa Liberal sobe para 13 e o CDS-PP não tem lugar próprio; o Livre sobe para 10, o PCP para 7, o BE para 4).

As 43 leis rejeitadas: 11 sobre saúde, 10 sobre família, 6 sobre trabalho

As 43 leis rejeitadas que teriam passado a primeira votação, por categoria do Parla!.

Quem as propôs: Livre 14, PAN 8, PS 8, BE 7, Iniciativa Liberal 3, PCP 2, Chega 1.

pessoas com deficiência e quem delas cuida (11 leis: crédito à habitação, apoio em casa, acessibilidade nos edifícios públicos, emprego, pensão antecipada, IRS, atestados de incapacidade, horário dos pais);

famílias com filhos (9: abono de família, creches, amas);

profissionais do SNS (5: médicos internos, dentistas);

utentes do SNS (3: doentes oncológicos, mulheres no parto);

trabalhadores por turnos, quem cuida de familiares em paliativos, dadores de sangue.

No entanto, em quase metade dos casos, houve leis parecidas a avançar na mesma.

Em 19, algo parecido avançou. Em 8, outra coisa. Em 16, nada parecido

Muitas vezes há três ou quatro projetos sobre o mesmo assunto e um deles passa. Para cada uma das 43, procurámos no mesmo tema as propostas que passaram e os decretos do Governo desde junho de 2025.

Já é lei, por outra proposta 10 A mesma medida (7): carreira de médico dentista, direito ao esquecimento no crédito, apoio em casa a pessoas com deficiência, prazos de pagamento do Estado. Uma lei mais estreita (3): Estatuto da Pessoa Idosa, juntas médicas, parto.

Outra proposta aprovada na generalidade, à espera da votação final 6 Abono de família (4), bandas filarmónicas, crianças vítimas de violência doméstica.

Decreto do Governo no tema 3 Apoios aos concelhos atingidos pelas tempestades de 2026 (2), estágios dos futuros professores.

Atividade no tema, noutra direção 8 Jogo a dinheiro online, entre outros: o Livre pedia autoexclusão e avisos; os decretos tratam do Euromilhões e dos casinos.

Nada parecido 16 Médicos internos (3), crédito à habitação para famílias de pessoas com deficiência (3), creches (3), amas (2), doentes oncológicos (2), acessibilidade nos edifícios públicos, trabalho por turnos, compensação a polícias.

Os autores e as votações de cada caso estão na lista tema a tema, no fim do artigo; as datas, na página de cada iniciativa.

Não encontrámos nenhuma proposta aprovada em sentido oposto ao da rejeitada.

Quando uma versão parecida passou, não foi porque o PSD mudasse de voto. Em quatro temas (apoio em casa, direito ao esquecimento, juntas médicas, Complemento Garantia para a Infância) o PSD votou contra a versão aprovada, tal como tinha votado contra a rejeitada. O que mudou foi o partido que antes se abstinha:

no apoio em casa e no direito ao esquecimento, o Chega absteve-se nas versões rejeitadas e votou a favor da aprovada;

nas juntas médicas, o PS absteve-se na versão do PCP e votou a favor da sua;

no abono de família, nas rejeitadas faltou ora o PS ora o Chega; na que passou, os dois votaram a favor.

A exceção é a carreira de dentista: aí foi a AD que mudou, de contra (versões do BE e do Livre) para abstenção (versão do PAN, que passou sem um voto contra).

E "avançou" não quer dizer "no mesmo sentido". O PAN propôs mais direitos para a mulher no parto; foi rejeitado. Um ano depois, o texto saído da comissão a partir de um projeto do Livre passou as três votações no mesmo dia, com a AD, o PS, a Iniciativa Liberal e o PCP a favor e o Livre, o BE e o PAN contra.

As 43 leis rejeitadas que passariam a primeira votação com o hemiciclo proporcional, por categoria e tema. Em cada tema: as propostas rejeitadas, o que avançou entretanto e uma leitura das votações.

Carreira dos médicos internos · Nada parecido avançou

PAN · Reintegra o Internato Médico na Carreira Médica, alterando diversos diplomas

BE · Valorização da carreira médica (alteração Decreto-Lei n.º 177/2009, de 4 de agosto)

Livre · Valorização da carreira médica no Serviço Nacional de Saúde

O que aconteceu. Três projetos para integrar o internato médico na carreira médica (PAN, BE, Livre), rejeitados. Nada avançou: o Parlamento pediu mudanças e o Governo não respondeu.

Uma leitura do jogo político. AD contra nas três; faltou sempre o voto do PS e da IL, abstidos; Chega a favor das três.

Carreira de médico dentista no SNS · Já é lei, por outra proposta

BE · Criação da carreira de médico dentista no Serviço Nacional de Saúde → PS 356107 e PAN 356473 · já publicada em Diário da República · a versão do PAN passou a generalidade sem votos contra, com AD, Chega, PS e IL abstidos (sim)

Livre · Cria a carreira de médico dentista no Serviço Nacional de Saúde → PS 356107 e PAN 356473 · já publicada em Diário da República · a versão do PAN passou a generalidade sem votos contra, com AD, Chega, PS e IL abstidos (sim)

O que aconteceu. Quatro partidos propuseram a mesma carreira. As versões do BE e do Livre foram rejeitadas; as do PS e do PAN passaram a generalidade no mesmo dia e já estão publicadas em Diário da República. A medida existe.

Uma leitura do jogo político. A AD votou contra as versões do BE e do Livre e absteve-se na do PAN, tal como Chega, PS e IL: a do PAN passou sem um único voto contra. Chega e IL abstiveram-se nas do BE e do Livre. Lê-se como um resultado que dependeu de quem assinava, não do conteúdo.

Doentes oncológicos · Nada parecido avançou

Livre · Acresce direitos laborais aos trabalhadores com doença oncológica

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